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Qual o papel da Economia Circular na transição para a neutralidade carbónica?

Há muito que sabemos que a procura da população mundial por recursos naturais (e.g. solo, plantas, minerais, água, etc.) é maior do que a capacidade do planeta em renová-los. Neste momento, utilizamos cerca de 50% a mais de recursos naturais do que temos disponíveis, ou seja, precisaríamos de 2 planetas para sustentar os nossos padrões de consumo atual. Se o planeta consumisse como Portugal, os recursos para este ano (2022) teriam terminado a 07 de maio.

No entanto, muitas têm sido as soluções apresentadas para uma produção e consumo de recursos mais sustentável. A crise das matérias-primas a que se tem assistido é também um incentivo às várias soluções baseadas nos 3 R’s: Reduzir, Reutilizar e Reciclar. Para fazer face a esta gestão, várias têm sido as políticas desenvolvidas, tal como o Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos (PERSU), com ações que permitem contribuir para a redução de consumo de matérias-primas primárias através da:

– Maior prevenção dos resíduos;

– Aumento da reutilização;

– Aumento da reciclagem;

– E de outras formas de valorização dos resíduos urbanos.

 

Meter a economia a circular

A economia circular promove um novo modelo económico através da coordenação dos sistemas de produção e consumo em circuitos fechados, oposto ao modelo linear. Esta mudança de paradigma vem redesenhar e inovar processos, produtos, serviços e novos modelos de negócio para uma otimização da utilização de recursos. A inovação necessária em toda a cadeia de valor permite às empresas serem economicamente viáveis e ecologicamente eficientes, aumentando os níveis de circularidade da utilização de materiais no ciclo económico. Este novo modelo económico torna-se relevante para muitos setores de atividade (e.g. mobilidade, agroalimentar, florestal, construção e resíduos), reduzindo nas emissões de gases com efeito de estufa e contribuindo para um desenvolvimento mais sustentável.

A Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) adotou em 2015 a Agenda 2030 integrada por 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Esta agenda é suportada pelos três pilares da sustentabilidade – Social, Económico e Ambiental. Ao ODS número 12, a ONU atribuiu o objetivo de ‘Produção e Consumo Sustentáveis’. Este objetivo prevê ações para:

– Reduzir para metade o desperdício de alimentos per capita a nível mundial;

– Reduzir substancialmente a geração de resíduos por meio da prevenção, redução, reutilização e reciclagem.

 

A circularidade da Energia

Atingir a neutralidade carbónica em 2050 significa abandonar de forma progressiva o modelo económico linear, suportado essencialmente nos combustíveis fósseis e apostar simultaneamente numa economia com base nos recursos renováveis, que utiliza os recursos de forma eficiente. O modelo económico circular faz menos uso de energia e prepara a economia para um futuro mais sustentável, contribuindo de forma efetiva para a transição energética e para o cumprimento das metas estabelecidas pela comunidade internacional relativamente ao Acordo de Paris (plano de ação para limitar o aquecimento global).

Os usos intensivos da energia não ficam pela produção de produtos e bens, acompanhando-os até ao fim do seu ciclo de vida, quando já não são usados. Aqui, entram os processos de recolha e reciclagem, também eles exigentes ao nível energético, com o objetivo de valorizar estes resíduos e integrá-los novamente no ciclo económico. Aos resíduos que não podem ser reciclados, como os orgânicos e outros, também estes podem ser transformados e valorizados energeticamente, promovendo uma maior circularidade da energia.

 

Energia na Produção

A economia circular vem alterar o processo que está no topo da cadeia de sustentabilidade — a conceção dos produtos. Os processos de produção industrial requerem consumos intensivos de energia; a sua eletrificação, assente em tecnologias de energia renovável, oferece um grande potencial para a descarbonização do setor, através da eliminação dos gases com efeito de estufa – um dos grandes desafios da transição energética. Desta forma, as energias renováveis a par com medidas de eficiência energética possibilitam produzir produtos com menor pegada carbónica, beneficiando as indústrias ao torná-las mais competitivas, reduzindo os seus custos com a energia.

 

Energia na Reciclagem

Com a produção e consumo massivo de produtos, ocorre a desafiante gestão do seu fim de vida. Estes produtos (e.g. vidro, plástico, metal, cartão, elétricos e eletrónicos), agora vistos como resíduos, têm valor económico. O modelo económico circular prevê que os mesmos sejam reciclados e voltem a ser recursos, dando origem a novos produtos. Produzir novos produtos através de matérias-primas recicladas requer na maioria das vezes menos energia do que produzir um produto com materiais novos. Também as centrais de reciclagem podem ser otimizadas do ponto de vista energético, melhorando a sua eficiência energética, monitorizando a sua energia ou através da produção de energia renovável para autoconsumo.

 

A energia dos resíduos

Aos resíduos que não tem opção de reciclagem, podem ainda ser transformados em energia em diferentes processos que incluem, tecnologias térmicas e não térmicas. Aqui são salientadas duas destas tecnologias: em centrais de valorização energética (tecnologia térmica) ou em centrais de digestão anaeróbica (tecnologia não térmica).

Nas centrais de valorização energética, a energia também é reciclada. Os resíduos são queimados, produzindo vapor de água, que ao passar por uma turbina irá gerar energia elétrica – desta forma, reduz-se o lixo em aterros que trazem diversas consequências a nível ambiental. Nas centrais de digestão anaeróbica, os microrganismos dos resíduos orgânicos decompõem-se na ausência de oxigénio, obtendo produtos como o biogás (energia renovável) e o composto. O biogás pode ser valorizado através da geração de energia elétrica e térmica e o composto tem potencial para ser utilizado como fertilizante orgânico nos solos, fechando aqui o ciclo dos nutrientes e reduzindo as emissões de gases com efeito de estufa.

 

Os desafios e oportunidades da digitalização na reciclagem

A digitalização tem trazido um aumento da produção e consumo de equipamentos elétricos e eletrónicos. Neste sentido, está previsto que estes resíduos cresçam exponencialmente nos próximos anos, tornando-se prioridade encaminhá-los e separá-los adequadamente. A complexidade dos produtos elétricos e eletrónicos, pela sua multiplicidade de materiais (e.g. vidro, plástico e metais), torna a sua separação um desafio. Adicionalmente, quando estes resíduos são expostos a temperaturas elevadas, dispersam no ar químicos tóxicos e poluentes, apresentando um impacto ambiental significativo.

Por outro lado, a digitalização apresenta-se como uma solução que vem otimizar e tornar o processo da reciclagem mais eficiente. Através da incorporação de sensores nos ecopontos, por exemplo, será possível planificar de forma mais eficiente as rotas para recolha dos resíduos. Os dados destes sensores permitem ainda monitorizar os ecopontos de forma a compreender que zonas geográficas reciclam mais ou menos, ou ainda se a reciclagem está a ser feita de acordo com as boas práticas. Estes dados oferecem inputs para a segmentação e dinamização de campanhas de sensibilização para a importância da reciclagem e boa práticas junto das populações, onde seja necessário melhorar. Esta tecnologia tem, portanto, a capacidade para otimizar a forma como as cidades e os governos locais gerem e recolhem os resíduos urbanos, tornando a sua operação mais eficiente e económica, reduzindo também impactos ambientais.

 

O avanço tecnológico a par com as políticas públicas económicas, energéticas e ambientais irão permitir nos próximos anos uma mudança social, para que a expansão do modelo económico circular tenha um papel mais efetivo na transição para a neutralidade carbónica.

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